Ataque cibernético e chantagem contra o Einstein: a invasão que mirou prontuários
Criminosos invadiram sistemas do Hospital Albert Einstein, roubaram registros de saúde e exigiram resgate. Entenda a investigação da PF e como se proteger.
O programa Smart Sampa, sistema de videomonitoramento por câmeras e inteligência artificial da Prefeitura de São Paulo, teve credenciais de acesso e dados sigilosos expostos publicamente em um repositório na internet por cerca de 11 meses. O caso veio a público em outubro de 2026 após apuração jornalística.
A brecha expôs dados cadastrais de mais de 6 mil agentes de segurança pública, 181 logins e senhas válidos e links de transmissão em tempo real de mais de 58 mil câmeras instaladas na capital, incluindo creches, escolas, postos de saúde e unidades psiquiátricas. O sistema não exigia autenticação de dois fatores para acesso externo.
Um guarda civil metropolitano foi identificado e afastado de suas funções, enquanto a Corregedoria da GCM, a Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo apuram responsabilidades. O episódio gerou alerta sobre governança de dados pessoais, impactos da vigilância estatal e o risco de abordagens indevidas decorrentes de falhas cadastrais.
0:00:00 Samurai: Imagina a cena: você leva seu filho pequeno na creche municipal ou vai até uma sala de consulta no posto de saúde, achando que tá num ambiente reservado e seguro.
0:00:09 Sara: E não tá? Tem uma câmera gravando lá dentro?
0:00:13 Samurai: Tem uma câmera no teto. Só que o acesso à transmissão dessa câmera ficou largado num arquivo aberto na internet... por cerca de onze meses.
0:00:21 Sara: Onze meses?! Qualquer um na internet conseguia entrar e assistir ao vivo?!
0:00:26 Samurai: Qualquer um com uma conexão de internet e um navegador. Até o final deste episódio, Sara, você vai entender como dados e senhas de mais de cinquenta e oito mil câmeras da maior cidade do Brasil ficaram expostos, o perigo real pra população e uma justificativa oficial que até agora não convenceu os peritos. Eu sou o Samurai, e este é o CyberJustiça.
0:00:49 Sara: Samurai, antes de entrar nos detalhes técnicos desse caso... se alguém trabalha com sistemas de monitoramento ou lida com câmeras corporativas, qual é a regra de ouro pra isso nunca acontecer?
0:01:02 Samurai: A dica fundamental número um é nunca permitir acesso externo a fluxos de imagem com login e senha simples. Sistema de videomonitoramento exige autenticação em dois fatores obrigatória, controle de privilégio mínimo e auditoria contínua de acessos. Se você só pede senha comum, você não tem segurança; você tem apenas a ilusão dela.
0:01:24 Sara: E foi exatamente essa ilusão que caiu em São Paulo com o Smart Sampa, né? O que é esse programa afinal?
0:01:31 Samurai: O Smart Sampa é a grande aposta de videomonitoramento da Prefeitura de São Paulo. Um projeto gigantesco, operado pelo consórcio Smart City São Paulo e a plataforma Sentinelx, sob um contrato estimado em quinhentos e oitenta e oito milhões de reais por cinco anos.
0:01:47 Sara: E pelas contas oficiais da prefeitura, o sistema ajudou a capturar mais de três mil e seiscentos foragidos e localizar duzentas e oitenta e quatro pessoas desaparecidas, certo?
0:01:59 Samurai: Exato: três mil seiscentos e vinte e oito foragidos capturados, segundo o balanço oficial. Mas em vinte de outubro de dois mil e vinte e seis, uma reportagem do portal Uol revelou o outro lado dessa moeda: a central inteira estava escancarada na rede.
0:02:15 Sara: Escancarada como? Não eram só as câmeras de trânsito nas avenidas?
0:02:20 Samurai: Longe disso. Das mais de cinquenta e oito mil câmeras ativas, os dados vazados davam as coordenadas e acessos de mil cento e cinquenta e sete câmeras em Unidades Básicas de Saúde, as U-B-S.
0:02:33 Sara: Isso é gravíssimo... e nas escolas?
0:02:37 Samurai: Quatrocentas e vinte e quatro câmeras em escolas de educação infantil, as creches e Emeis, além de trezentas e noventa e seis em escolas de ensino fundamental. Crianças e bebês com suas rotinas diárias monitoradas por olhos que ninguém sabe de quem eram.
0:02:52 Sara: Pera aí... além das imagens das crianças e pacientes, quem mais foi exposto nesse arquivo?
0:02:58 Samurai: Os próprios policiais e agentes da Guarda Civil Metropolitana. O vazamento continha uma lista cadastral com dados pessoais, incluindo nomes e cê-pê-êfes, de mais de seis mil agentes de segurança pública, dentro de um universo de cerca de sete mil e quinhentos operadores autorizados.
0:03:15 Sara: Mas Samurai, como esse material foi parar na internet aberta? Foi um ataque de ransomware, um hacker russo invadindo servidores?
0:03:23 Samurai: Nada tão sofisticado, Sara. A investigação aponta que a falha partiu de dentro da própria Guarda Civil Metropolitana de São Paulo. Um servidor com credencial válida extraiu arquivos técnicos, códigos e acessos do sistema.
0:03:37 Sara: Espera... o próprio funcionário subiu o código e as senhas pra internet e ninguém da prefeitura percebeu por quase um ano?!
0:03:46 Samurai: Onze meses, pra ser preciso. E a imprensa comprovou na prática: jornalistas encontraram cento e oitenta e um logins e senhas válidos nesse repositório. Eles testaram as credenciais na plataforma Sentinelx e entraram direto nas transmissões ao vivo.
0:04:02 Sara: Sem pedir código de confirmação no celular? Sem segundo fator nenhum?
0:04:06 Samurai: Nada de segundo fator. Era digitar o login vazado, a senha vazada, e pronto: você estava dentro da rede do Smart Sampa, assistindo ao trânsito, ao pátio da creche ou localizando viaturas da G-C-M em tempo real pelas ruas. E tinha mais: o pacote incluía scripts e instruções técnicas que ensinavam passo a passo como emular a central de monitoramento em computadores pessoais e até em celulares.
0:04:33 Sara: Quer dizer que se uma facção criminosa encontrasse esse repositório, ela poderia acompanhar a posição exata de cada viatura da guarda pela cidade?
0:04:43 Samurai: Exatamente. Saberia onde estão os guardas, quem são os guardas e quem está entrando numa delegacia ou numa base comunitária. É o sonho de consumo de qualquer quadrilha organizada.
0:04:54 Sara: E a prefeitura de São Paulo? Qual foi a resposta oficial quando os repórteres bateram na porta com esses acessos na mão?
0:05:01 Samurai: A Secretaria Municipal de Segurança Urbana soltou nota dizendo que o repositório não continha senhas e que não houve invasão da infraestrutura central. Só que a imprensa mostrou as credenciais funcionando na tela.
0:05:13 Sara: E qual era aquela justificativa oficial que você comentou no começo, Samurai?
0:05:17 Samurai: Pois é. Em declaração pública, o prefeito admitiu que o guarda guardava senhas, mas aventou a possibilidade de aquilo ser uma espécie de 'isca' monitorada pra atrair acessos suspeitos. Só que nenhuma perícia, nenhum relatório da guarda e nenhum inquérito confirmou essa história até agora. Ficou só na retórica política.
0:05:38 Sara: E enquanto as câmeras ficavam expostas, como a inteligência artificial do sistema estava se comportando nas ruas com o cidadão comum?
0:05:45 Samurai: Os dados oficiais entre novembro de dois mil e vinte e quatro e maio de dois mil e vinte e seis mostram que duzentas e sessenta e oito pessoas foram conduzidas indevidamente a delegacias por alertas do sistema e acabaram liberadas em seguida.
0:06:00 Sara: Que pesadelo pro cidadão que tá indo trabalhar de manhã cedo...
0:06:04 Samurai: Um pesadelo que custa caro. E o caso está longe de um desfecho final. A situação atual é de apuração em múltiplas frentes. Não houve prisões até aqui: apenas um servidor da G-C-M foi formalmente identificado e afastado de suas funções públicas.
0:06:21 Sara: E quem tá investigando esse caso agora?
0:06:24 Samurai: A Corregedoria da G-C-M abriu processo administrativo disciplinar contra o servidor. A Polícia Civil de São Paulo abriu inquérito policial formal. No Ministério Público estadual, a promotoria do Patrimônio Público instaurou uma Notícia de Fato para que um promotor analise se abre inquérito civil. E o Tribunal de Contas do Município acompanha a execução do contrato milionário.
0:06:47 Sara: A prefeitura tomou alguma atitude prática depois da denúncia?
0:06:51 Samurai: Tirou o repositório da internet às pressas e declarou ter implantado autenticação em dois fatores com verificação de código por S-M-S para a criação de novas senhas. Só que a perícia técnica conclusiva ainda não terminou, então ninguém sabe exatamente quantas pessoas de fora baixaram esses arquivos durante os onze meses de exposição.
0:07:13 Sara: E você que tá ouvindo a gente agora e mora em São Paulo, ou em qualquer cidade com câmeras de reconhecimento facial... o que deve fazer se desconfiar que foi vítima de exposição ou abordagem errada?
0:07:25 Samurai: Primeiro: se você foi abordado indevidamente por engano da máquina ou teve imagem violada em espaço assistencial, registre imediatamente um boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Paulo e protocole uma representação junto à Promotoria de Justiça do Patrimônio Público do M-P-S-P. Segundo: faça também uma denúncia na Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana. Terceiro: se você é agente de segurança e teve seu nome ou cê-pê-êfe exposto na lista vazada, troque na hora todas as suas senhas corporativas e ative alertas de monitoramento de crédito no seu documento.
0:08:02 Sara: E a Lei Geral de Proteção de Dados, Samurai? A prefeitura não tem que prestar contas?
0:08:07 Samurai: Com certeza. Pela resolução número quinze da Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a A-N-P-D, incidentes graves de segurança precisam ser comunicados à autoridade e aos titulares afetados em até três dias úteis. O passo a passo completo pra quem teve dados vazados ou direitos violados tá lá em cyberjus ponto org, na página Fui vítima.
0:08:30 Sara: Pensar naquela mãe ou naquele paciente que foi filmado sem saber por uma câmera com senha aberta na internet... dá um frio na espinha, né?
0:08:39 Samurai: Dá mesmo, Sara. A vigilância prometia proteger a cidade, mas por puro desleixo com regras básicas de cibersegurança, quem acabou vigiado sem defesa foi o próprio cidadão.
0:08:51 Sara: Manda este episódio agora praquele amigo ou colega de trabalho que acha que reconhecimento facial público nunca falha e que segurança não precisa de dois fatores.
0:09:02 Samurai: Cuidem-se bem, protejam seus acessos e até o próximo CyberJustiça.
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