O cerco ao Discord: como grupos fechados operavam e a ordem que impõe multa diária
A Justiça Federal determinou que o Discord adote medidas rígidas contra aliciamento e sextorsão de menores, sob multa diária de R$ 100 mil.
A Polícia Federal deflagrou as fases 46 e 47 da Operação Uiraçu em outubro de 2026, cumprindo mandados judiciais em Natal e Parnamirim, no Rio Grande do Norte. As apurações revelaram um esquema internacional de comércio e compartilhamento de material contendo abuso sexual de crianças e adolescentes.
Durante seis meses de investigação, agentes mapearam 677 pagamentos pulverizados em moeda estrangeira feitos por compradores internacionais. A ação contou com apoio do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) da PMRN e alertas da Polícia Nacional da Espanha e da Ameripol.
Dispositivos eletrônicos foram apreendidos e encaminhados para perícia técnica oficial. O caso segue em andamento para a identificação de novos envolvidos e aprofundamento das provas.
0:00:00 Samurai: Imagina uma tela cheia de notificações bancárias. Centenas de alertas de crédito pipocando a cada semana, sempre com valores vindos de fora do país.
0:00:10 Sara: Parece até trabalho remoto legítimo ou alguma venda legal de produto pra fora, né?
0:00:15 Samurai: Pois é, Sara. Só que por trás dessas transferências não tinha produto legal nenhum. O que tava sendo vendido pela internet eram imagens de abuso sexual infantil.
0:00:26 Sara: Nossa... Que absurdo revoltante.
0:00:29 Samurai: Neste episódio, você vai entender como a Polícia Federal seguiu o rastro de seiscentos e setenta e sete pagamentos em moeda estrangeira pra alcançar os operadores desse esquema no Rio Grande do Norte. E até o fim, a gente vai te mostrar os sinais práticos pra identificar se alguma criança por perto tá sob risco na internet. Eu sou o Samurai, e este é o CyberJustiça.
0:00:52 Sara: Samurai, como é que essa investigação chegou no Brasil? Isso começou aqui?
0:00:57 Samurai: Não começou no Brasil. A matriz dessa investigação veio da Europa, conduzida pela Polícia Nacional da Espanha.
0:01:05 Sara: Pera aí... Na Espanha?! E o que foi que a polícia espanhola descobriu por lá pra essa apuração atravessar o oceano e bater direto aqui no Brasil?
0:01:13 Samurai: Os policiais espanhóis descobriram grupos em aplicativos de mensagens dedicados a distribuir e negociar material ilícito de violência contra crianças e adolescentes. Conforme mapeavam os usuários, viram conexões em vários países.
0:01:28 Sara: E como isso veio parar nas mãos da nossa polícia?
0:01:31 Samurai: Através do Centro Especializado em Cibercrime da Ameripol, conhecido como A-C-três. Eles formalizaram um pedido de cooperação internacional e enviaram os dados diretamente pra Polícia Federal aqui no Brasil. Esse centro especializado da Ameripol identificou conexões ativas no território brasileiro e repassou esses dados técnicos fundamentais pra Polícia Federal dar início às apurações no Rio Grande do Norte.
0:01:56 Sara: Quer dizer que o criminoso acha que a internet não tem fronteira, mas a cooperação policial também não tem.
0:02:03 Samurai: Exatamente, Sara. E antes da gente entrar nos detalhes da batida policial, tem um ponto que todo pai, mãe e responsável precisa colocar em prática hoje mesmo.
0:02:13 Sara: Qual ponto?
0:02:15 Samurai: Acompanhamento ativo e diálogo aberto. A melhor proteção não é só instalar aplicativo de bloqueio. É criar um espaço onde a criança ou o jovem se sinta cem por cento seguro pra contar se alguém estranho puxou papo num jogo ou pediu fotos. A orientação expressa da Polícia Federal é instruir crianças e adolescentes a comunicar prontamente qualquer abordagem estranha ou conteúdo desconfortável a adultos de confiança, sabendo que vão ter acolhimento e proteção.
0:02:44 Sara: Sem dar bronca logo de cara, né? Porque o medo de perder o celular faz a vítima esconder o assédio.
0:02:50 Samurai: Você tocou no ponto central. O diálogo precisa ser contínuo e sem punição. Se a criança tiver medo da sua reação, ela vai guardar segredo do predador. Mas agora, olha como a operação se desenrolou no Nordeste.
0:03:04 Sara: Onde a Polícia Federal bateu primeiro?
0:03:06 Samurai: A primeira ação recente foi no dia quinze de outubro de dois mil e vinte e seis. Era a Fase quarenta e seis da Operação Uiraçu. A ordem judicial partiu da décima quarta Vara Federal no Rio Grande do Norte.
0:03:19 Sara: E quem cumpriu esse mandado?
0:03:21 Samurai: A própria Polícia Federal, com o apoio operacional do Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar, o Bope potiguar. Eles foram até um endereço em Natal pra apurar armazenamento e compartilhamento desse conteúdo hediondo. A ordem foi expedida pela décima quarta Vara Federal com o objetivo de apreender aparelhos eletrônicos e apurar a prática de armazenar e compartilhar esses materiais criminosos através da internet.
0:03:47 Sara: Teve prisão naquele dia?
0:03:48 Samurai: Não houve prisões reportadas naquele momento. Os policiais apreenderam um aparelho celular, que foi recolhido imediatamente pra passar por perícia técnica.
0:03:59 Sara: Pera aí... Mas essa era a fase quarenta e seis. Cinco dias depois teve outra?
0:04:03 Samurai: Sim. No dia vinte de outubro de dois mil e vinte e seis, uma terça-feira, veio a Fase quarenta e sete. Dessa vez na cidade de Parnamirim, colada em Natal.
0:04:14 Sara: E o que os agentes encontraram em Parnamirim?
0:04:16 Samurai: Eles cumpriram um mandado de busca e apreensão e levaram um computador e um celular. E foi nessa fase que o detalhe financeiro mais impressionante veio a público. Diferente da fase anterior em Natal, a apuração em Parnamirim mirava a comercialização pela internet, com o investigado usando computador e celular pra gerenciar os arquivos e vender pra fora.
0:04:38 Sara: O rastro das transações que você mencionou no começo?
0:04:41 Samurai: Exatamente. Os investigadores constataram que não se tratava apenas de trocar arquivos entre criminosos. Havia uma verdadeira comercialização transfronteiriça.
0:04:51 Sara: Venda pura e simples...
0:04:53 Samurai: Venda direta. Ao longo de seis meses, foram registrados nada menos que seiscentos e setenta e sete pagamentos feitos em moeda estrangeira.
0:05:04 Sara: Seiscentos e setenta e sete pagamentos em só meio ano?! É quase quatro compras por dia!
0:05:09 Samurai: Uma média pesadíssima, Sara. Eram compradores de diferentes países pagando pelo material ilícito. Essas transações eram pulverizadas em plataformas digitais pra tentar não chamar a atenção das autoridades financeiras.
0:05:22 Sara: Mas a polícia conseguiu detectar cada uma dessas entradas.
0:05:26 Samurai: Conseguiu. O cruzamento das informações bancárias com os registros eletrônicos permitiu fechar o cerco sobre os aparelhos usados pra gerenciar e armazenar esse acervo criminoso. As seiscentas e setenta e sete transações em moeda estrangeira confirmam esse comércio digital criminoso. Eram compradores de diferentes países adquirindo o conteúdo ilegal ao longo de seis meses.
0:05:49 Sara: E os valores totais movimentados foram divulgados?
0:05:53 Samurai: A Polícia Federal não divulgou os valores globais em dinheiro, nem a quantia exata de cada remessa. A identidade do investigado em Parnamirim também não foi revelada, pra preservar o andamento das investigações.
0:06:04 Sara: E como tá a situação desse caso agora, Samurai? O processo já acabou?
0:06:09 Samurai: Não, tá em pleno andamento. O caso não terminou.
0:06:13 Sara: E qual é o próximo passo das apurações agora que o computador e os celulares recolhidos em Natal e Parnamirim tão nas mãos dos peritos da Polícia Federal?
0:06:22 Samurai: O computador e os celulares recolhidos nas duas fases foram encaminhados pra perícia técnica oficial. O objetivo é aprofundar as investigações, colher elementos probatórios e esclarecer toda a dinâmica do esquema, além de identificar novos envolvidos e compradores. Essa perícia técnica oficial é decisiva pra aprofundar as apurações, comprovar a dinâmica do esquema e esclarecer a rede de envolvidos e compradores que financiavam esse material hediondo.
0:06:51 Sara: Tomara que puxem esse fio até o último cúmplice.
0:06:54 Samurai: Com certeza. E agora a gente cumpre a promessa do início, com o checklist de prevenção que a própria Polícia Federal reforçou nessa operação.
0:07:03 Sara: O que a gente precisa observar dentro de casa?
0:07:05 Samurai: Primeiro: mudanças bruscas no comportamento. Se o adolescente ou a criança começa a se isolar demais, esconder a tela do aparelho com ansiedade ou demonstrar irritação repentina ao receber mensagens, ligue o sinal de alerta.
0:07:20 Sara: E também prestar atenção nos sinais fora da internet, certo?
0:07:24 Samurai: Perfeito. As autoridades destacam que o abuso muitas vezes dá sinais no mundo físico: queda de rendimento escolar, medo injustificado de certas pessoas ou alterações no sono. E além de observar esses sinais, Sara, a orientação da polícia é manter um canal de conversa permanente sobre riscos digitais, acolhendo a criança sem ameaça ou bronca.
0:07:46 Sara: E se alguém descobrir que uma criança tá sendo assediada ou teve imagens expostas, o que fazer na hora?
0:07:52 Samurai: Não apague nada. Preserve todas as mensagens, perfis e comprovantes. Faça capturas de tela com a data e hora visíveis. Em seguida, procure a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente ou uma unidade da Polícia Federal pra registrar o boletim de ocorrência.
0:08:09 Sara: E dá pra buscar orientação também nos canais de apoio, né?
0:08:12 Samurai: Dá sim. Tem o Disque cem, canal federal gratuito, e o passo a passo completo pra documentar provas digitais tá lá em cyberjus ponto org, na página Fui vítima.
0:08:23 Sara: Aquelas notificações bancárias do começo mostram que esse mercado clandestino opera todo dia. Mas a polícia tá no encalço.
0:08:31 Samurai: O dinheiro deixa pegadas, Sara. E o rastro digital nunca desaparece por completo. Manda este episódio no grupo de pais da escola e pra quem convive com crianças e jovens. Informação e diálogo salvam vidas.
Continue ouvindo
A Justiça Federal determinou que o Discord adote medidas rígidas contra aliciamento e sextorsão de menores, sob multa diária de R$ 100 mil.
Criminosos invadiram sistemas do Hospital Albert Einstein, roubaram registros de saúde e exigiram resgate. Entenda a investigação da PF e como se proteger.
Credenciais do Smart Sampa ficaram expostas por 11 meses na internet, abrindo acesso a 58 mil câmeras de escolas, postos de saúde e bases policiais.
CyberJustiça Brasil